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Drauzio Varella: 'SUS não tem como oferecer imunoterapia contra o câncer'

Um dos mais conhecidos médicos cancerologistas do país, Drauzio Varella, apesar de valorizar resultados de estudos recentes, não é otimista quanto a queda de custos que permitiria levar novos tratamentos como a imunoterapia para tratar o câncer de pulmão para o setor público.

Qual a importância de estudos recentes com imunoterapia em câncer de pulmão?

Até os anos 1980 e início dos 1990, teve forte influência um trabalho do Canadá que dividiu pacientes com câncer de pulmão em dois grupos: um recebia cuidados paliativos e outro, quimioterapia. O primeiro grupo ia até melhor. Por isso, durante muito tempo, a quimioterapia ficou questionável em câncer de pulmão. Depois, começou a se usar na quimioterapia os derivados da platina, a carboplatina e cisplatina e novas drogas. E então começam a surgir novos trabalhos com imunoterápicos com resultados consistentes. Se for analisar a evolução no decorrer do tempo, todo tratamento até agora era centrado na quimioterapia. Mas sabe-se que as chances de resposta à ela vão caindo muito ao longo do tempo.

Qual a vantagem da imunoterapia?

Essas drogas ativam um braço da resposta imunológica, o que torna o tumor mais imunogênico, fazendo com que o sistema imunológico reaja com mais competência. Esse é o ponto mais interessante. Os resultados desses estudos são preliminares, ainda não se pode considerá-los definitivos. Mas são drogas que têm poucos efeitos colaterais. A quimioterapia em câncer de pulmão agressivo provoca muito efeito colateral. São doentes incuráveis, e o objetivo do tratamento é melhorar a qualidade de vida. É um novo caminho, que ainda não se sabe onde vai chegar, mas que deve ser explorado. Estamos nos primeiros passos.

E o impacto na vida dos pacientes?

Como são esquemas com pouca toxicidade, acho que teremos muitos candidatos a esse tipo de tratamento. Mas aí entramos na limitação financeira — tanto no sistema público, como no suplementar. O sistema público não tem a menor condição de oferecer. Não pode ter uma droga com um custo mensal de cerca de R$ 37 mil. Mais de R$ 400 mil ao ano. Isso é impagável.

Acredita que o custo vai cair?

Não parece. Isso nos coloca em uma situação horrível. Você diz o que para o paciente? Vai negar essa informação? Não pode. Você tem que dizer que existe esse tratamento. E ai ele diz: “Vale a pena eu vender a minha casa para pagar o tratamento?”. Não sei. Eu não venderia a minha. Não tenho nem certeza em que grupo eu vou estar (dos que se beneficiariam ou não da imunoterapia)… Com imuno, poderia ter mais oito meses de vida, mas eu não sei se eu vou morrer em três. Alguns pacientes não respondem à imunoterapia, não tem segurança nenhuma ainda.

Como é o padrão de tratamento no Brasil?

O SUS não consegue dar tudo para todo mundo. O dinheiro para fornecer imunoterapia teria de sair de algum lugar, e o SUS não o tem. E para beneficiar quantas pessoas? Temos que definir isso também na saúde suplementar. Como o plano de saúde paga? Não é o dono que tira do bolso dele. Ele aumenta a mensalidade de todos, que pagam por isso.

Fonte: O Globo
Data: 12/06/2018