Anahp | Área Restrita

Sargento Tainha e os feiticeiros da Saúde

Avalie este item
(0 votos)
Desde que as redes sociais deram um altofalante para qualquer indivíduo com um computador e uma conexão de internet, todo o mundo passou a conhecer pelo menos um aspirante a salvador da pátria. Às vezes, ele é um vizinho; outras, um par de trabalho; em geral, não passa de um “amigo” virtual; não raramente, lidera organizações e equipes; e, eventualmente, ocupa até cargo de ministro.

Essas pessoas, em suas diversas esferas de atuação, parecem acreditar na necessidade de que, se não tiverem opiniões formadas a respeito de absolutamente tudo - do preço da batata às políticas públicas de saúde -, serão rebaixadas, diminuídas, excluídas do clube dos superheróis que rondam o planeta. Ao se apressarem para mostrar uma saída, uma solução genial ou uma frase de efeito, falham no preparo e no bom senso, o que, a rigor, traz o risco de tomar decisões precipitadas e eternizar declarações estapafúrdias.

Tudo isso lhe parece familiar? Então, vou contar uma história.

Havia um quartel chefiado pelo sargento Tainha, um sujeito relaxado, caracterizado pela barba por fazer, a barriga proeminente e a moleza habitual. Tão desorganizado quanto ele próprio, estava o seu grupo, também escorado sobre a máxima do “deixe como está”. Cada vez que um novo tenente ingressava na casa, o sujeito rapidamente escaneava o local com os olhos e sentenciava: “A partir de amanhã, quero tudo arrumado, vamos fazer assim e assado”. Sargento Tainha não se importava. Com desdém, tranquilizava os demais: “Relaxem, não vai acontecer nada”.

Ele tinha razão - tudo continuava em seu lugar (ou melhor, fora dele). Até que, um dia, um jovem tenente elaborou: “Olha, não sei o que dizer pra vocês ainda.Primeiro, farei um diagnóstico das coisas, para assim identificar os problemas e, somente então, pensar nas soluções”. Logo em seguida, surge o sargento Tainha em nova versão: uniforme impecável, barba aparada, unhas cortadas, de prontidão para servir. “Ué, sargento, o que aconteceu? Esse novato não sabe de nada, não tem o que dizer. Como o senhor pode se importar?”. O nada inocente comandante esclareceu: “É que os outros não tinham a menor ideia do que estavam falando; esse, não, ele vai fazer um diagnóstico”.

Um diagnóstico. Veja que coisa bonita.

Nós estamos cercados de visões equivocadas e paladinos desnorteados. Gestores da Saúde entendem, muitas vezes, que devem assumir o papel de heróis, de feiticeiros da tribo, capazes de criar soluções mágicas para os problemas. Querem ser exuberantes e autossuficientes, e jamais podem reconhecer a sua falta de conhecimento sobre qualquer assunto. Sem análise, discussão e entendimento suficientes, incorrem a erros.

Como exemplo do que digo, citaria as manifestações iniciais de novas autoridades sanitárias sobre a liberação da fosfoetanolamina, a “pílula do câncer”, sem testes e registro na vigilância sanitária, entre outros assuntos. “A fé move montanhas”, ouvimos em entrevista, buscando justificativas inapropriadas e desconexas para a não comprovada eficácia no uso da substância no tratamento da doença.

As pessoas não podem exalar opiniões particulares e vagas, que fluem sem pudores na mesa do bar, quando falam por uma instituição, uma empresa e, muito menos, por um País. Eu me refiro à diferença entre pensar como um torcedor de futebol e como um dirigente de federação, por exemplo. Falo doabismo que existe entre se posicionar como pessoa física e entidade jurídica.

A verdade é que não existe mágica na tomada de boas decisões. Transparecer os gargalos de conhecimento, tomar uma posição de colaboração junto à equipe e tornar-se aberto ao aprendizado são as atitudes que fazem um herói da Saúde. E eu posso garantir: ele é feito de carne e osso, com generosas porções de humildade e ponderação.

Saiba mais

Siga o perfil Balestrin no Linkedin