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Por que saúde não é um tema nacional?

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Ideologia e visões fragmentadas impedem que o assunto seja tratado com a relevância que merece
 
Iustração cfd96Houve um ponto de virada na história da Anahp quando lançamos, no ano passado, o chamado “Livro Branco: Brasil Saúde 2015 | A sustentabilidade do sistema de saúde brasileiro”, uma proposta de redefinição do modelo da saúde no País. Um estudo sério, profundo, com as rotas de correção que poderiam de fato transformar a maneira como nos relacionamos com o assunto. Levei o projeto para discussão em um grande jornal de circulação nacional, afinal, pensei eu, lá estavam alguns dos maiores formadores de opinião do Brasil, diretores e jornalistas, intelectuais, gente capaz de analisar e questionar como ninguém. Juntos, discutimos saúde. Mas a verdade é que o assunto ficou trancado naquela sala de reunião.
 
A população brasileira, em todas suas esferas sociais e de poder, sofre de uma doença crônica: a incapacidade, ou desinteresse, de debater o sistema e as engrenagens que efetivamente impactam o seu funcionamento. Em outra palavras, saúde não é um tema nacional, por mais irônico que isso pareça, já que testemunhamos diariamente a ineficiência do atendimento ao cidadão. O assunto hoje é o Fora Dilma, a corrupção, a liberação das drogas - e não quero de forma alguma diminuir a relevância desses temas.

O ponto é: insistimos em discussões pontuais, parciais e desfocadas sobre a saúde. Um exemplo bastante claro dessa miopia é a polêmica sobre a importação de médicos cubanos. Você deve se lembrar da repercussão gerada na imprensa, do impasse que virou assunto da mesa de jantar, das enfáticas opiniões contra ou a favor da medida. E, na defesa de pontos de vista particulares, o debate se concentrou na questão: importar ou não importar mão de obra de Cuba?
 
Você acha mesmo que o problema da saúde é ter ou não ter médicos cubanos?
Discutir saúde não se resume a fazer um caderno especial de jornal, ou desviar a atenção para abordagens isoladas. Discutir saúde deve fazer parte do seu dia a dia, assim como a respiração. Se queremos regenerar o sistema de saúde brasileiro, devemos debater os modelos organizacional, assistencial, de gestão e remuneração. Falemos de transformações estruturais. Façamos as perguntas certas: como responder às expectativas do cidadão quantos aos serviços de saúde? Que políticas públicas movem essa evolução? Quanto estamos dispostos a pagar por isso? E a propósito, quem disse para você que o médico é sempre a melhor pessoa para fazer saúde?
 
Chegamos, então, à decisiva pergunta: mas por que saúde não é um tema nacional?
Porque saúde, no Brasil, envolve ideologia. O nosso sistema de saúde universal, por exemplo, está para nós assim como o NHS, considerado um dos melhores do mundo, está para os britânicos. A grande diferença é que não respeitamos o SUS como eles respeitam o NHS. Não somos engajados. Porque o SUS nasceu de forma ideológica.
 
Isso significa que você não muda os fundamentos econômicos de um País. Porém, o entendimento do que vem a ser a discussão e as transformações na saúde, assim como ocorre na educação e na política social, se molda a visões fragmentadas do problema. É simples: cada um enxerga a saúde como quer.
A rivalidade ideológica inviabiliza a busca por uma solução. Por isso, precisamos de lideranças com voz e que tornem a saúde um tema de Estado, de massa, de interesse comum. Embora o processo deva ser estimulado pelas lideranças políticas e institucionais vigentes, o cidadão tem o papel crucial de provocar essa transformação. Pois, quando as pessoas desejam ampliar a discussão, elas começam a pressionar quem está em cima para pensar em mudanças não só incrementais, mas estruturantes.
 
Eu gostaria que você percebesse esse blog como mais uma contribuição da Anahp para que a discussão sobre saúde no Brasil, enfim, alcance a maturidade de que tanto precisa. E sei que isso é como criar um filho - um compromisso de longo prazo, trabalhoso, às vezes doloroso e, no fim das contas, prazeroso. Mas quer saber? Essa é a única forma de seguir em frente.
 
Vamos juntos?

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