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O desperdício que nem todo o mundo vê

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LUPA2 537f2Eu estava no quarto ano de medicina quando fui parar em Abaiara, no sertão do Ceará, pelo Projeto Rondon, iniciativa do governo brasileiro que levava estudantes voluntários para prestar atendimento a comunidades carentes, isoladas nos cantos mais ermos do País. A cidade tem pouco mais de 10 mil habitantes, diz o último censo do IBGE, está próxima de Missão Velha e a 12 quilômetros de Milagres, maior município da microrregião de Brejo Santo.

Foram dois meses de trabalho com a população local, atendendo mais de 100 pessoas por dia, tempo e experiência suficientes para me causar um enorme sentimento de frustração. Primeiro, porque o conhecimento adquirido na faculdade pouco servia naquele momento, uma vez que não havia recursos necessários para diagnosticar e tratar adequadamente os doentes. As condições de higiene e saneamento básico eram extremamente precários, o que piorava ainda mais a situação.

Essa decepção, porém, tinha mais um motivo: o desperdício de recursos, a ineficiência da gestão da Saúde, e tudo isso em condições extremas. Havia posto de saúde recentemente construído, mas de portas fechadas, sem ninguém para atender. Por diversas vezes, me deparei com medicamentos vencidos, equipamentos enferrujados e estruturas sem o mínimo de preparo para manter aquele patrimônio.

Isso foi em 1979, mas situações como as que testemunhei em Abaiara continuam hoje, mais de três décadas depois, a compor grande parte da realidade do Brasil.

Como disse em artigo recente publicado no UOL e tenho enfatizado com recorrência, a corrupção certamente nutre as fraquezas do modelo de Saúde brasileiro e deve ser combatida como uma doença letal. No entanto, segundo estudos da Organização Mundial de Saúde (OMS), ela é responsável por algo em torno de 10% do desperdício total verificado no setor. Temos, pelo menos, outras nove falhas para solucionar, se considerarmos que o mesmo estudo aponta outras possíveis 10 causas da ineficiência na Saúde. Entre elas, a utilização imprópria de materiais, a prescrição inadequada de medicamentos e processos de gestão defasados, que tornam o sistema mais lento e ineficaz.

Tais problemas podem prejudicar até mesmo as melhores intenções. O Rotary, por exemplo, promoveu campanhas humanitárias, desde a década de 80, que ajudaram a erradicar a poliomielite no mundo. Hoje, existem entidades de igual seriedade que, por exemplo, lutam pela prevenção do câncer de mama, o de maior índice de mortalidade entre o sexo feminino, evangelizando a mulher para a importância de fazer mamografia periodicamente. Não há dúvidas sobre o impacto positivo dessas ações, que incluem até a doação de equipamentos de mamografia para auxiliar na realização desses exames. Só que, muitas vezes, as máquinas são destinadas a locais onde não há gente capacitada para operá-las, ou faltam recursos para seu uso e manutenção. Eventualmente, sequer saem da caixa.

Ineficiência também é desperdício. Dos mais cruéis.

Voltei várias vezes para o Ceará e outras partes do Nordeste; nunca para Abaiara. Mas posso supor que, nesses anos todos, pouco tenha evoluído, se é que evoluiu, em termos de qualidade de mão de obra e processos. O Brasil ainda não conseguiu levar civilização a esses locais, e quem depende desse modelo – pacientes, médicos e outros agentes da Saúde – muitas vezes faz escolhas menos técnicas e profissionais por não ter uma política sanitária organizada e estruturada, e com financiamento adequado.

Quem pode culpá-los por suas escolhas?

Eu, não. O melhor que podemos e devemos fazer pela Saúde é acreditar nas mudanças e em nosso poder de realizá-las, mesmo que sejam necessários mais 10, 20, 30 anos. Mesmo decepcionados. Mesmo indignados.

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