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Entre o amor e a escuridão

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Paulo de Tarso, o apóstolo Paulo, sabia bem que conhecimento científico, crença, trabalho e doação não bastavam para o ser humano. Nas escrituras cristãs, gravou a mensagem: “E ainda que tivesse o dom da profecia, e conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, e ainda que tivesse toda a fé, de maneira tal que transportasse os montes, e não tivesse Amor, nada seria”.

Entre as inúmeras diferenças que nos dispersam uns dos outros, o amor é a premissa comum, independentemente de orientação espiritual ou filosófica. É o elemento fundamental para realização de todas as atividades a que nos entregamos, o cerne da nossa humanidade e a motivação das causas genuínas. Veja o nosso caso: na Saúde, os profissionais que, com dificuldades e desafios tão colossais, dedicam suas vidas a construir instituições que cuidam de seus semelhantes em momentos de máxima fragilidade, o fazem com amor.

Mas é necessário compreender que, como também nos lembrou Paulo, o amor não se alegra com a injustiça, mas se rejubila com a verdade. E a verdade é menos amorosa com o nosso setor. Existem, sim, sérios problemas éticos na Saúde, anunciados por profissionais e instituições que muitas vezes atuam no limite da irresponsabilidade; por indicações equivocadas de procedimentos e hospitais que recebem remuneração à margem de seus contratos; por agentes inescrupulosos entre operadoras de planos de saúde, indústria e distribuidores; e, ainda, por descaso, omissão e corrupção em partes do governo.

Não há dúvidas de que devemos reformar o modelo de remuneração da saúde suplementar, hoje produtor do desperdício e de práticas antiéticas em nosso País.

Sabemos quais são as opções e como implementá-las. Porém, nenhuma correção será plenamente eficaz sem uma revisão profunda e sincera de como nos organizamos e prestamos a assistência à saúde no Brasil. O hospital do futuro assume o protagonismo na coordenação da rede assistencial – da prevenção ao pós-tratamento.

Ao mesmo tempo, cabe-nos encontrar soluções para distribuir os pacientes que não necessitam de atendimento hospitalar para outras unidades assistenciais.

Não basta, contudo, olhar somente para fora. O sistema não é culpado por todos os nossos problemas. Há muitos males autoinfligidos no setor hospitalar, como a falta de mecanismos capazes de prevenir, descobrir, denunciar e remediar os desvios éticos que podem ocorrer nas instituições de saúde. Os números nos ajudam a dimensionar essa deficiência: pelo menos 95% dos hospitais do Brasil não possuem qualquer forma de acreditação, mesmo nos níveis mais básicos. Ou seja, falta a transparência de submeter-nos a uma avaliação independente e de jogar luz sobre nossas estruturas, seja para mostrar o que há de mais bonito, seja para enxergar e consertar o que não é.

Não pode haver assistência de qualidade se não existir um contexto de profundo respeito pelas pessoas e instituições que caminham conosco e dependem de nós. E aqui incentivo você a assumir o ônus da liderança. Cabe aos líderes a responsabilidade de perceber aquilo que ninguém quer ver, a coragem de agir quando a omissão seria mais simples e a lucidez de guiar a todos pelo caminho provavelmente mais árduo, porém reto, sem desvios.

Eu sei que todos os que militam no setor de saúde já sentiram, em algum momento, esmorecer a esperança e faltarem as forças para ir adiante. Às vezes, pode parecer que estamos em uma batalha vã, investindo contra moinhos de vento. Mas o amor tudo sofre, tudo crê, tudo espera e tudo suporta. Aqueles que agem nas sombras podem ter apenas uma certeza – somos perseverantes em nosso propósito de trazer mais luz para o setor da Saúde. E, se nos depararmos com nossas vergonhas e coerências nesse trajeto, tudo bem. Elas não são culpa da luz, mas da escuridão.

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